dementia #3

bicho-da-seda

sai do meu olho direito

me deixando insuportavelmente

aflito rodopiando no chão

batendo cabeça

na parede amarela

rodando nos

aros da motociclista

iconoclasta rebento 

desgélido

me consupto

irregularmente

espadas da legião estrangeira

atravessam

meu baço

dementia #2

ainda introspectivo 

comumente confundido em análises

de grupo com el chaco 

lutador imaginário dos re-bombs 

alegria ínfima 

oprofundidismos afrodisíacos 

groaning 

um líquido doce ao ritmo

do flautista etíope usando 

raspas para fazer musga

musgo cobre meu apê

um musgo estranho porém

cheiroso ácido na

ponta da língua 

 horizontalmente

perpasso os bancos de 

sempre nas praças de sempre

sugando os pescoços das

mesmas mulheres de 

sempre e tudo está como

sempre esteve menos eu

obviamente qual seria 

a razão de? muitos dogs

não me acham bem-vindo

e rosnam pra mim

procurando briga

nas madrugadas desse inverno

que me dói os ossos

e outros

até que querem fazer

amizade     esse universo

paralelo construído

na comuna de meu lar

interior  regras não se aplicam

e há um bartender inconsciente

que me move

e me move

em direção aos 

buracos da ojeriza noturna

onde não se nega prazer

e dedos com gosto de buceta

são aperitivos para

acompanhar a cerveja

desmaios e espasmos

desacelerantes cardíacos 

anfetamínicos  pela manhã

titio sun-ra esperando

com as chaves

do abismo

dementia #1

under a red pillow

 nasce o amor-pornô se desabrochando no cosmo

  da íris dilatada 

           de 4

           cabeça pra baixo

           O bom selvagem 

  beijos de anfetamina delirum tremens na presença

    de 

        jojouka nos tambores de couro

        velhos marroquinos de fumaça fosforescente

        apontam a direção / entregam em mãos

   clássicos do erotismo

           mundial para que nos

   tornemos mestres todos mestres

      as irmãs do convento da consolação 

      ficaram estarrecidas com a novidade

      de que parti derradeiro

                    [choraram 

  um novo universo penetrando

    em meu rabo pelas portas

    dos teus olhos

      os pontos cantando pontos

             ponto dos malditos

                                     parada inspecífica 

                                         logo será amanhã

                   clítoris trembling 

                   living is easy

          logo será amanhã

      

III

andei dando dedinhos breves

na catacumba embolorada onde

repousam ossadas           jazigos arrombados

por escavadores da linguagem que buscavam

alternativas para a combustão dos agentes

e repelentes do estado-maior da interzona 

 

controle está em todos os lugares

 

furtivo nos passatempos de zurique

bebendo absinto cheirando cocaína 

buscando arquétipos signos 

cut-ups ressonâncias 

sinais na janela de um quarto qualquer

na rua aurora onde

putas e nigérias disputam o pico

num 20×10 escamoteado de gozo

atrás de respostas

 

poder está em todos os lugares

 

tremedeira constante palavras palavras

maldizendo as benditas sacras palavras palavras de ordem

palavras tesudas palavras suadas lambidas verbais

sugo de acentos        blackout no viaduto françois villón

                                                                         [ali perto da nove de julho

 

delírio está em todos os lugares

 

um ritual enfiado na floresta

onde velhos curandeiros revelam o 

barato secreto dos tupinambás e um chá

preparado nas cumbucas de ilha comprida

onde o caminho entre os dois mundos se cruza

e as respostas se formam na dança invisível 

da fumaça do inconsciente

 

magia está em todos lugares

 

perguntas no divã de um analista superoculto     papel pardo

clics de código morse         entre continentes

frequências e torres entortadas pela força do vento 

                                                                              [invernal

repelente de mosquitos gregor samsa pelas manhãs

de maio baratas e borboletas encantadas nas

sociopatias dos meus olhos

lombra inacabável      papel pardo       grampos 

                                                     [estacionamentos

 

paranóia está em todos os lugares

 

koyaanisqatsi lambendo meu rosto barbado

caminhadas noturnas          vozes secretas pé do ouvido 

murmúrios de padres nas catedrais onde os muros

escondem o horizonte de montanhas

passeatas      carros de som     truculências

repetições minimalistas    cantos gregorianos

                                 

cemitérios existem em todas as cidades

último poema

(tenho a impressão q vcs amam me ver fodido da cabeça)

 

sempre começo poemas dando o lead ONDE

 

onde? aqui dentro

aqui dentro do meu peito tem um corvo

parecido com patti smith traços imperceptíveis 

perdidos no meio de uma balada disco 

fucking disappointment 

q nos moras ocepêndricos

a homeopatia funcione

a acumputura sare

e o tormento diário que se coloca

frente o espelho seja menos aguçado 

em algum pardón do rei manuel

onde problematizar o necessário

seja visto como  qualidade

 

depois o bicho pega e partimos pra QUANDO

 

quando me vi sentado por duas horas na bma quieto

na sacadinha folhando um livro qualquer

contemplando na distância possibilidades

que talvez agora seja um puta momento

para me matar: estou no auge, vinte e poucos

dois livros de poesia inéditos e vários outros

para os sanguessugas virem

roubar da minha estante depois do

velório

quando? quando pode ser novembro passado, 

dois mil e quinze

aquelas três semanas em fevereiro de 14 

que passei enfiado em curitiba na flávia

quando me dei conta que daí em diante

os dias saturariam meus olhos 

e o glow daria esse tom 

bosta

 

e aí vocês, leitores q 

se perguntam já curiosíssimos: 

                                                 COMO? 

 

de formas inimagináveis

uma parada meio trainspotting overdose

discos de lou reed

tá certo. 

como é pegar o transformer

e ouvir inteirinho de trás

pra frente. isso é como. é a buceta peluda

e do cu fedido & das línguas mestras 

das suculentas pururucadas 

na eterna projeção do amor impossível

sentar-se a mesa com fantasmas

mulheres homens pessoas

como? classic history

boy meets girl girl runs away 

como é o status quo dos dias bons e ruins

oh such a perfect day

 

nao pera.. PORQUÊ?

 

por que o fundo do meu sofá não

aguenta mais duas pessoas em cima

dele por que todas as manhãs 

vejo olhos que não meus

no reflexo da pia suja da semana 

por que cansei 

da poesia

 

QUEM?

vocês sabem quem.

II

um velho decrépito

sentado na nestor com seu

cachimbo cheio de ritmo contratempos

pediu brasa e se convidou 

para sentar contou

quermesses do século passado 

e crimes românticos

pistolas alemãs vendidas a preço de batata

por pracinhas cansados

a fumaça envolveu meus cabelos

cobriu minha cabeça 

santo velho velho imaginário porrete amigo com voz parva

entregando viscerais revelações de antidepressivo 

sobre todas as ruelinhas do latin quarter

estreita fala long plays rasgados 

no apartamento

garota seminua passando o café correndo por entre

cômodos com pincéis e tintas 

me incorporando à galeria

dos cadáveres expostos 

das últimas brigas

onde não há portas nem janelas

só auto-falantes & 

enlouquecedoras marchinhas mdma

corpos despejados sujos de terra com o rabo ardendo

arrependidos fantasmas que transpiram

e gemem baixinho o tesão

dos reprimidos

passado reticente

horas horas e mais horas

de fascínio e obsessão com espíritos

mais perturbados e insanos que o meu

inenarrável irresponsabilidade 

o velho se decompõe 

junto com as cinzas do seu fumo

e eu

eu já nem 

sei mais.

são luís blues #2

cena 3

exterior

dia

 

garota de eyes fullove hate / caminha com passos largos e rápidos até o metrô república / alcanço-a na avenida do orixá inabalável / esses teus lábios trêmulos / mordiscando-se como quem ensaia chorar / caminha tu agora sob o signo da traição / contrações musculares qdo apareço / socos pinches empurrões / “essa era a única coisa que você não podia ter feito, seu canalha” / ainda embasbacado com a porta entreaberta do apartamento / será que passo um café ou sigo o corredor? / corredor / corri feito um adolescente em dia do desafio / mais rápido que a cadência do late chris cornell // no filme da minha vida o roteirista é um azarão / o continuista saiu de férias / mas a direção de arte decide (sem consulta prévia) me colocar na avenida são luís em pleno feriado quinta-feira com a sagitariana de sempre aprontando as mesmas coisas de sempre and i think that’s beautiful / gritando nos meus ouvidos o quanto sou maluco / maluco maluco maluco / pedindo encarecidamente que eu a esqueça e nunca mais escreva nada sobre isso / pobrezinha / entretida no trainee adolescente que se esqueceu dos procedimentos que lapidam a existência de algo maior / tripudiando / tripudiando / não tripudie seus poemas em mim / não escreva sobre mim / não escreva / não escrev / não escre / não grite meu nome nas escadas da estação do metrô

poema geração beat barroco do cu

REPUGNATIO BENEVOLENTIAE
Me nego a ministrar clareiras para a inteligência deste catatau que,
por oito anos, passou muito bem sem mapas. Virem-se.
Paulo Leminski, 1975, p.3

fórmula infalível:

saca só mermão

pega aqui esse livro

           do >>>jack kerouac<<<

sai poraê viajando 

com seu bongô

desbravando as 

parada tudo vendendo as artes

lá pros rípe lá de são thomé

fuma uns baseados

e escreve umas parada louca

tente muito

desagradar todo mundo

e culpe

impreterivelmente

seu eu-lírico 

afinal, a liberdade poética

é um big dum

foda-se 

no fim das contas

comece a frequentar 

os puteirinhos de jukebox

inferninhos da baixada

e soon enough

alguém te chamará

de lixo humano

– não se abata – 

anote tudo em um

caderninho e siga a

caminhada tranquilão e

em casos de maior austeridade

se afaste

observe de longe

as movimentações

e lembre que leminski, que de 

beat não tinha nada, deixou

o verbo na página três

do seu catatau –

siga numa boa,

dói e passssssssa

leia

teus livros, transe tuas transas

escreva bons e

sinceros poemas

de amor

e por fim

minta

pra si mesmo

até quando for conveniente

aceitar a verdade

easy peak.

waltz #7

        reflexos psicóticos se confundem 

        nas avenidas    dúbias conversas

                         oceano empírico

         eu à deriva nos escapamentos

         reverbs sem energia

         calam a

                     linguagem caligrâmica 

                          xará apollinaire traficando

 na rua santa isabel

         jazz nas esquinas

         com nomes de generais 

         auditório costa & silva no mackenzie

         alameda castello branco – o spot dos maconheiros

         nas cornetas de postes

         não cumprimento do devir

         quase quase lá

                                                puta cansaço

                                                rijo

                      escorre suor

                                   estranhamento generalizado

                                   nas últimas neuroses

                                   o peso  dos pensamentos

                                   se tivesse uma câmera

              rodaria um plano sequência 

              com repetidas explosões

   

                     e depois cochilaria 

                     embaixo duma

                     árvore

mensagem ao rei

venta firme

nas colinas de jf

o fantasma 

de murilo mendes

aparece 

cobrar impostos

na antiga rota 

tupinambá

vende almas vai à roma

volta reluzente

cavaleiro delirante 

sombra

onisciente por entre

lápides no

funeral de andré breton

daqui da janela de casa

o batuque da cantareira

assobia no 

rasante

más notícias

queda de reis

cortes inteiras

dizimadas no in-between

de uma transa

num banheiro

no gender

bar-porão

madame satã

garotos & garotas

com batons reluzentes

e suor

roxy music e marc bolan

reverberados

nos cruzamentos

da metrópole

com mijo escorrendo

nas sarjetas sem

bueiros

visões de maconha

quizzes sem

resposta

mulheres

que vem e

vão embora

seu fantasma seu murilo

ando sem dinheiro

sua chancelaria 

talvez possa 

oferecer breve

perdão 

por escrito

CARTA AO REI MANUEL!

avise-o por favor

que apesar dos

pesares,

continuamos

bons

amigos