slaughterhouse 6

vinte e poucos anos, about em abatedouro: 

de esquerda. típico garoto de dce docinho da mamãe flores no cabelo. falaremos de bauman, foucault, poliamor e com três, apenas três, não quatro ou cinco palavras-chave, vou te arrastar pra minha casa easy as the wind goes by. conheço conceitos. te encherei com vários deles: as ideologias, as músicas, os livros, um monte de coisas sem sentido, que legitimarei usando o argumento final de que há um tempo deixei de ser beat e hoje me considero um surrealista. repudio immanuel kant & sua crítica à razão pura. os socialistas utópicos li mas não aprovo entretanto tenho hegel na ponta da língua. teu gozo vai ser dialético. pasme: sou percussionista. toco tambor no maracatu do centro acadêmico, minhas chinelas de couro estão todas desgastadas e aquele poema do paulo leminski sei de cabeça (caso você seja troskE). prefiro respeitar o espaço alheio e vejo apertos de mãos como haicais pops: ausentes de sentido. vou danado pra catende. sigo o fluxograma central da apinéia do sono. a moda é ser desprendido desprevenido desbaratinado. a utopia se suicidou com a mesma faca que selou o acordo em que secretamente nos tornamos liberais. tratarei a ti, como a mim mesmo: feito mercadoria. ah, também tenho uma banda. é uma parada meio experimental. um negócio psycodélia com roupas excêntricas e rimas mais conceituais que todos os conceitos já supracitados. você verá, sou interessante. coleciono discos. tenho todos aqueles que você nunca vai ter. te deixo babar por uns dois minutos. quiçá os livros. metade têm nomes impronunciáveis e a verdade é que não é pra ficar olhando livros que vou te chamar para sair. odeio mensagens, que tal uma cerveja na praça roosevelt? não gosto de fumantes, mas fumo compulsivamente escondido enquanto meus pais se batem trancados no quarto e sobra só a mim e o cachorro doente. todas aquelas coisas inentendíveis que dizem certos cabeludos serão piores comigo. não ofereço pedagogia nem didática. entende, não é pq marx disse, que tenho que seguir à regra. (lembre-se: sou um secreto liberal mas a turminha do coletivo ainda não sabe). sem pensamentos primários. sem acabou chorare. o negócio mesmo é novos baianos futebol clube. nem contei: sou de áries e minha vênus é em touro. mercúrio em peixes – to whom it may concern. nossa chapa perdeu nessa eleição mas temos certeza q ano que vem nosso programa político vai ser avassalador & foda-se as terceirizadas. tenho um futuro. não iremos sair em público. não gosto dessas coisas. por isso, esqueça o mandíbula. moro no centro, é verdade. em um apêzinho todo bonito e descolado que faz metade do serviço por mim. vou sentar durante horas e ficar fitando seus olhos copiosamente até decidir se confio em você ou não. isso pode durar dias. preciso consultar os compêndios clássicos antes. pode tudo. pode todes. aqui é feito coração de mãe. os amigos inconvenientes que descobriram a causa do proletariado semana passada em uma aula de introdução à política também serão bem-vindos. preciso de almoço, não é? tenho mesmo um futuro. grande quadro político de organização à esquerda das esquerdas, na vanguarda das vanguardas, com cinco companheiras três cachorros um gato e dois apartamentos. começarei na suplência de vereador. não se meta no meu caminho. minhas camaradas vão acabar passando o pano de qualquer forma. e então, bora pro psicodália?

I

ogodô na canuto do val sob 

               chuva fina

                         resquícia

                                intérprete

                 as unhas quinzenais de Maldoror 

                              rabiscam a pele de

                  um pobre bebê marciano desavisado 

    (saturno!)            vou-me embora pro cariri 

                                         me devolverá todos os amores

      que já passaram – :: 

                                   1 viajante desconhecido

     com sua barba vermelha 

                                            desenha no peito a Pedra do Ingá//

o, man donde vais

on t’appela pas jean!

                                           viajei para tangiers só pra

                             manjar que a parada marroquina 

   não se compara 

    ao da jordânia                                          (pass

                                               corpo ausente :: na afinação

                                                  do piano de salloon 

                  horizontes de max ernst

                                       percalço 

                             estanho

                     vaga-lumes embriagados

       doze cordas. doze notas. 

                                     [raios de sol laranja

relato pra fingir que não esqueci

[i]

o frio era bruxo. tennessee 5 am let’s head to memphis. tudo era particularmente incomum. andava com um par de garotos que costumava chamar de dead boys. muito tempo antes de conhecer a banda punk. diferente dos wild boys de burroughs e sick boy de irvine welsh, os dead boys eram uma trupe de pangarés que não tinham onde cair mortos. se a gente morresse ali não ia ter velório e ia ser uma fossa. não me levem a mal, o bicho prometia esquentar naquele sombrio 2010 (oh my) e nós nos colocávamos a postos no porão de c. ouvindo música fumando haxixe e falando sobre garotas. nesse tempo garotas eram um negócio estranho ainda pra mim. meu approach era meio robótico e tudo virava uma enorme presepada. parecia um pimentão. voltando :: os dead boys eram três garotos que passaram por todo o clichê da mal-criação norte-americana: rolos de papel nas árvores, arrebente de caixas de correio, chumbinho embaixo de benchs durante o homecoming. primários. até incomodar uma família amish rolou certa vez. numa madrugada qualquer circulando pelo mercado atrás de doces eis que me deparo com o fino da bossa pai mãe filhos todo mundo vestido de peregrino. a sinceridade das minhas expressões sempre foi minha morte mais aguda. bom eis que father george e seu filho isaac me olham cabreiros de volta e eu lá parado de pernas abertas no meio do corredor. s. tinha carro e esperava impaciente no estacionamento. eye on eye com father george quando me viro e saio andando para um lado e eles para o outro. na saída eqto fumava camel reds surge a carroça dos caras. padrão 1817 2 eixos 2 cavalos. corri para o carro e ao maior estilo school of rock van do jack black para a highway 40 sentido memphis. muito frio. pouca roupa. jovem, burro e horny. 

memphis tem umas coisas/misturas de vários elementos representativos tendo como expoente principal o rio mississippi. as margens do mississippi são como todas as outras margens mureta da urca cachoeira na ilha do cardoso rio das vacas em itararé etc. mas. mas tenho impressão de que não. magic carpet ride foi um som escutado over and over na highway 40. quando desci do avião & saí do aeroporto logo ali a primeira virada caiu direto no asfalto da 40 e no power of the classic rock. ::: tão novinho e tão maconheiro ::: um complete works of edgar allan poe de baixo dos braços e mucha preguiça. memphis was the placê to get some. beale street é uma espécie de avenida são luís se tivesse sido perfeitamente preservada. poderia talvez bem talvez com muitas ressalvas dizer augusta mas o peso histórico não é o mesmo. foi ali que o pau comeu entre robert johnson e não sei quem certa vez e johnson puxou a 22 e abriu um buraco no meio da cabeça do capanga de satã que quis cobrar sua alma antes da hora. elvis presley passeava de cadillac rosa procurando sarna pra se coçar. sam phillips andava pelas ruas atrás de talentos e todo aquele estilo sul pós industrial imitando chicago nova york com seus skyscrappers de tijolos marrons. chelseas e martinellis everywhere. :: im the sppppppppy in da house ovalove. c. era o mais horny dos dead boys. hj mora em bogotá e promete chegar em sp a qualquer momento. diz que cresceu. c. arrumou um par de ingressos para um show qualquer de psychobilly que acontecia num bar ali. disse que lá encontraríamos garotas. dei de ombros. queria fumar mais e estava acabando então segui. underage com muita barba sinônimo de problema. passava fácil e s. desconfiado ao meu lado dizia coisas como “cara, isso é uma baita encrenca” ao maior estilo danny glover. falei para que não esquentasse a cabeça com o cu na mão e disse que logo iríamos viver uma aventura igual sal e dean. s. não pescou a referência pq o livro continuava jogado no carro – pela quarta semana seguida. 

volbeat era a banda no palco. c. arrumou um date e s. e eu fomos atrás de el índio o traficante do bar. juro que se pudessem fazer a gente pagar em bitcoin à epoca tenha certeza q fariam sem dó. o bagulho era bom. creme-de-la-creme da marijuana aditivada. haxixe tava em falta unfortunatelly. psychobilly é aquela parada que misturada com uma boa maconha faz a garotada dançar. s. chapava e ficava mais covarde do que já era sóbrio. grudava em mim e dizia (dannygloveamente) “z temos que dar o fora!”, “a coisa vai azedar”. prometiam misfits três bandas depois e um tiozinho que colava cartazes me contou que era um festival anual e 2010 era o primeiro ano sem o the cramps no line-up. lux interior tinha acabado de morrer e foi-se o doce. “misfits legal”, pensei. o lugar era pequeno mas aconchegante. dizem que até um rato é bonito se souber falar inglês, quiçá um bar onde era penetra. enquanto os acordes do baixo acústico de um cara de vinte e tantos que parecia ter saído direto da banda do dick dale dominou as caixas e fez tremer o tablado a pista de dança & fumaça saía dos mictórios e stay sick ::: os dead boys talvez tenham encontrado brian setzer dando uns teco em cima do capô de um carro. história pra outro tato. s. voltou dirigindo e quase capotou o carro três vezes por dormir no volante. ficamos sabendo depois ::: não lembro se vi o show do misfits sei que ainda deu tempo de comprar um isqueiro-souvenir pra lembrar depois. acho que vi. não sei. não importa. 

les chants

o inaudível sounds terrible, não? 

      clap zap de elis no monomotor asfixiado 

  caindo de parachutes nas areias de piratininga 

                                     entretendo turistas abobalhados 

                                            que pulam em trens em 

   )movimento

                           e sentam-se 

          para esperar

                                           o jantar(

o condutor, precoce

não se apercebe dos danos

(glasnost) provos amsterdão primavera de 

               corações atribulados in verve ova

¿no[thing      A      whrs poe poeta louco     

                                                              e america]no?

                                                                      after all,

                        o novo sempre vem

dias de iemanjá (excertos atônitos)

entrei numa fase afrosambas há um tempo já. digo, o afrosambas se tornou referência absoluta dos ritmos e batuques que agora compõem as linhas de sofridos poemas meus. na mistura de tudo, da feitiçaria na linguagem e nas crendices populares, me sinto andarilho de dois mundos. o mundo real e o mundo de experiências não-humanas. a relação com algumas coisas estreitou; a terra vermelha do interior, o mar aberto brabo de ipanema e as prainhas escondidas entre morros e aventuras apaixonadas. os caminhos tortos do recente reboliço da pauliceia me despertam velhos bangagalôs. como catatau do pl ou panamérica do agrippino (leiam) trago p mim mesmo a missão hermética de romper o suculento cabaço que comprime as relações entre o fogo, terra e água. tudo ainda é muito novo. muito muito novo. as vielas são efemérides, e devíamos sentir um pouquinho de gratidão. não essa punheta dos militantes do psol. a verdadeira gratidão, a caridade by the book. pode ser o barato dando errado, mas espero que não. o ônibus quando chega no tietê é um porre – o tietê inteiro é um puta porre. a plataforma do metrô repleta de compêndios e compêndios do estrangulamento da desgraça humana, e o babalaô canta discreto nos meus ouvidos. deixei há muito velhos trapos e sigo adiante. as misereres só não se comparam alguém me dizer pela manhã que o gil havia morrido. perdia-se o realismo fantástico da mpb? não era possível o gil morrer sem que o demiurgo fosse viral e atingisse status de mass-media e todos pudessem vê-lo doido no orange sunshine tocando tambor. e o macalé no fundo, estourando o banza. por aqui tudo parece tranquilo, nas juras, quizumbas e sobembas nomes fictícios e sensações orgânicas da esperada volta já ser quase finda.

purée de batatas morais

                                                          p/ Baden & Janaína

insultando aristocracias

cautelo/s/a/s

mário de andrade recitou

macunaíma nos palanques

da contravenção no lgo do paissandú

com tambores de xangô & versos

de ode ao burguês – chovia.

garotas e garotos filhos da pobreza

esfarrapada sentados no chão

esperando méritos de longo

(alcance :::

                              lembrem-se, bufões

as passagens do municipal estão

definitivamente fechadas p todos vcs

e os

           esqueletos da golden age

do modernismo explodem os jazigos

no cemitério da consolação

– :: as vielas 

da avenida rio branco

                            (território nigeriano 

escondem batuques recôncavos & o 

exu de jorge de lima e seu 

orfeu vêm do luar

mira acá, se você quiser amar

(se você quiser amor)

[…]

glimpse pra não deixar passar

                                                     acenos

& vista grossa 

       para bobocas 

                                   suicidas 

                                                   [psicopatologia do pânico

na porta do 

     mercado       fim de tarde 

                                                   de um dia suculento

                                nas entranhas

do inferno                                       (art

                purgatório                            aud et paso

                                 paraíso                                   lini)

                                 tanto na cabeça

     que tédioidététano

                                     deve ser, tétano!

               pensei que fosse melhor

                                                           que isso           

   

                                               

                                               [meh

reflexões da falta de ópio (excertos catatônicos)

nem dormi. como poderia, afinal? na falta do ópio me tenho por completo. hundred percent. deixei claro de formas variadas nos últimos anos o quanto não sou fã de mim mesmo, principalmente sóbrio. a sobriedade é um estado de não-sensação. uma morfina que potencializa os demônios, pensamentos obscuros e fragilidades aparentes. em retrospecto, o ansiolítico natural somado à psicanálise me guiaram muito bem. pelo menos por um tempo. lembro demais do dia que meu analista me perguntou quantas vezes eu já havia ido chapado para a consulta. gargalhei e respondi: “todas”. as veias do bruxo lacaniano saltavam à testa; ele ficava claramente incomodado. o uso de drogas por psicanalistas sempre foi bem comum, como os cheiradores freud e otto gross. esse foi meu argumento. por alguns minutos parecia que ele gostava de encarnar o policial do proerd só pra mandar muito bem na bronca. eu odiava, mas seguia sem realmente me importar muito. a questão principal é não conseguir encarar a realidade concreta, com seus mecanismos e dispositivos particulares; pequenas vaidades aparecendo e mais, tudo saindo da reta. a reta pode ser uma madrugada gelada de domingo pra segunda, no centro de são paulo, onde saio flipping out chutando todos os cestos de lixo e esperando que algum maluco bem maluco encane comigo, assim eu posso descontar toda a raiva guardada dentro de mim. talvez seja isso, esse negócio da raiva. ela está ali, imperdoável e atenta. sempre atenta.

waltz #6

           sorrisos                                   amarelos

                         brandos no

                                            espaço-tempo 

          você em 

                                confortáveis

               assentos 

                                            na manhã escaldante do alsfalto

                        de niterói  

                                              &        

                                                         adjacências

                        munamú de conchas 

                                                         secretas 

                                                                        cheia de

                                poréns

          

           faz um 

                                 tempo que quero um 

                                

                                 retrato teu na paredes

                sujas 

                aqui                                                que

                            a                                         ?tal

                         s         de

                      a      

                   c